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HERÁLDICA
Conceito | " Heráldica Assumida " Parte I
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" Heráldica Assumida " Parte I
Publicada em: 28/12/2004

   

   "Sob certos aspectos a  Heráldica assumida é uma das mais notáveis e cheia de significado.  Não se deve esquecer que ela está na base de todo o desenvolvimento  da arte de bem orientar as representações  simbólicas da personalidade.
     De início,   a  Heráldica  assumia-se  por  imposição  utilitária.  Cada um tomava para si um distintivo privativo para melhor se diferenciar dos outros.

     Quase  todos  os  antigos  brasões  de   armas  têm,  na   origem  uma proveniência assumida.

     Mas é a altura de perguntar: o que são armas assumidas?
     
     Quando  um  brasão  de  armas  é obtido  por escolha do próprio diz-se assumido. Na origem, não resta dúvida que a forma de obter o brasão foi a de  cada  um  o  escolher  como  lhe  aprouvesse.  Mais  tarde,  a Heráldica apurou-se e cristalizou. As suas fontes originárias  restringiram-se.  A forma normal de obter  o direito  ao  uso  do  brasão  de  armas  estava então na herança  familiar  e,  em  certos casos, na concessão graciosa do soberano. Diz-se  a  forma   norma  porque,  em  alguns   países,  o  uso   de  armas assumidas não deixou de ser praticado, sobretudo  pelos  artistas  e oficiais mecânicos das grandes manufactureiras do norte da Europa que reforçavam siglas  e  monogramas  com  arranjos heráldicos, antepassados das actuais "marcas" industriais e comerciais.

     Noutros  países,  como  em  Portugal  por  exemplo,  o  uso  de   armas escolhidas   pelos   próprios   interessados  em p ossuí-las  não  foi   muito praticado. Fora certos institutos religiosos e corporativos,  a  forma heráldica de   ordenar   distintivos  e  símbolos  esteve  relegada   para  a  sua  fonte hereditária  ou  para  o   acto  gracioso  do monarca. Chegou-se a tal ponto nesta  restrição  e  apego  ao  preconceito  hereditário das linhagens que se concediam,  muitas  vezes,  cartas  de  brasão e nelas reconhecia-se, como boa  e  bem  provada,  uma  linhagem sem antiguidade, só para atribuir ao titular o  direito  a  brasão  reconhecido  de  família  vetusta. O processo foi cómodo para os preguiçosos reis-de-armas que, de   um golpe só matavam logo  dois  coelhos:  não  tinham  o trabalho de conceber novas ordenações heráldicas e  satisfaziam,  em especial, aos olhos dos novos brasonados, o gosto   vaidoso   de  se   julgarem   da  velha   estirpe,  mesmo   que  esta assentasse, notoriamente, sobre mal urdido sofisma   genealógico.

     A  confusão  dos  tempos  modernos  teve, pelo menos, a vantagem de reduzir os formalismos e  permitir um impulso novo dado às formas de que veio beneficiar a Heráldica.  Não é  para  desprezar  a  circunstância deveras notável de coincidir, precisamente,  com  o  aparatoso  e  revolucionário fim dos  chamados  privilégios  nobiliárquicos, o  renascimento  cada  vez  mais pujante da Nobre Arte que brota de todas as suas fontes, até daquelas que pareciam já adormecidas para sempre.

     Renasceu   assim   o   gosto  pela   escolha  e  adopção  de   distintivos ordenados  segundo   as  regras  da  ciência   e da arte heráldicas. A par do estudo  dos  antigos  armoriais  desenvolveu-se  a   prática  de usar marcas pessoais   indicativas  de  posse  e  estas  tiveram a   sua  primeira  e mais expressiva   manifestação   nos   ex-libris   pretexto  involuntário   de  uma autêntica Heráldica assumida, já hoje senhora de exemplares valiosos não só  no  ponto  de  vista  da  Arte,  como no do seu expressivo ordenamento segundo  as  regras  do  brasonário.  Isto  no  que se refere a Portugal. Nos grandes  centros  europeus  no  norte  da  Europa  dá-se   em  grande,  um fenómeno   semelhante  e  até a tradicionalista Inglaterra não teve dúvidas em  facultar,  através do seu  famoso  College  of  Arms, cartas patentes de armas a quem assumisse um brasão e depois  o registasse mediante £105 (em 1966) de emolumentos e patente.

     Entre  nós  a  nova  Heráldica assumida está ainda nos seus alvores. Se um  surto  económico  fornecer  certa   abastança,  com  ela  a  Nobre   Arte também enriquece, pois será  acolhida  por  todo que  gostem de rodear-se de  beleza.  A  brilhante  iluminura  de  um  bonito  brasão,  como  sinal de personalidade, não é coisa para desprezar.

     Como não há lei que a proíba e como se lhe reconhece utilidade (não é uma  exibição  meramente  sumptuária)  a  Heráldica assumida justifica-se.

     É  oportuno  lembrar  que   hoje  a  Heráldica  não é um a ciência oculta, cabalística e hermética.  É  uma  ciência,  uma  arte  e uma técnica. Por seu intermédio consegue-se o harmonioso efeito dos símbolos no seu desenho e nas suas cores e metais. Por intermédio da Heráldica obtém-se, para uso próprio, um agradável cartão de visita multicolor.

     Alguns exemplos de brasões assumidos mostram quanto a  Heráldica é preciosa na poesia das  suas  expressões  figuradas e na bela sinfonia das suas cores, mesmo fora das grandes "marcas" brasonadas.

     O  uso  de  sinais  e  de  símbolos  tornou-se   mais do que um simples devaneio exibicionista.  Tornou-se  em  verdadeira n ecessidade nascida da exigência de "distinguir",  imposta  pela  confusa  e  multitudinária vida dos dias que estão a decorrer.

     À urgência de organizar cada vez melhor a sociedade de modo a   tornar mais   perfeitas     as  relações  entre  os  seus   membros,  corresponde  a reconhecida vantagem de distinguir indivíduos e grupos no meio do  imenso caudal humano que circula em todas  as  direcções e  por  todos  os  meios, sobre a pequenez do globo terrestre. 

     Não  é  para  admirar,  portanto, o  facto  de  se estarem a vulgarizar os "sinais" ou as "marcas"  para  usos  puramente civis, fenómeno semelhante ao  que  se  verificou,  no  campo  económico,   com as marcas comerciais e industriais.

     O  gosto  crescente  pelos  ex-libris  como  "marca"  especial, destinada a indicar a propriedade dos livros é uma boa prova disto.

     Da  simples  alusão  simbólica  e  da  alegoria  das marcas de posse do género  dos  ex-libris,   chegou-se  à manifesta tendência de ordenamento heráldico,   já por  influência  da  Heráldica  de   família,  exuberantemente "representada"  na  posse  dos l ivros,  já  pela   facilidade  de concepção e ordenamento obtidos ao recorrer-se às regras da arte de brasonar.

     Nem   sempre  o  emprego  destas   regras  logrou  bom   efeito,   mas deve  atribuir-se  à   deficiência  da   execução  artística e  não às salutares soluções heráldicas.

    




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